O jogo não é um jogo: a crescente ameaça do vício do jogo entre os jovens
Na era digital, o jogo deixou de ser um simples hobby e tornou-se uma preocupação de saúde pública. Cada vez mais jovens são apanhados pela tentação das apostas online, uma tendência alarmante que está a atingir números preocupantes na Argentina.
De acordo com uma pesquisa nacional realizada pelo IBOPE para o Centro de Estudos Pensando Políticas Públicas , 8,3% dos entrevistados disseram já ter jogado online. Entre os jovens dos 15 aos 24 anos, a percentagem sobe para 12,5 por cento, e sobe ainda mais para 15,5 por cento na faixa etária dos 24 aos 34 anos. Esses dados mostram que a maioria dos apostadores são jovens e adolescentes, apontando um problema que atravessa todas as classes sociais e que requer atenção urgente.
Em diálogo com a Agência de Notícias Científicas da Universidade Nacional de Quilmes , Walter Martello, chefe do Observatório de Dependências e Consumo Problemático da Defensoria Pública da Província de Buenos Aires, explica que com o aumento dos investimentos milionários em publicidade e patrocínio de eventos esportivos, as plataformas de apostas encontraram um mercado fértil na América Latina, colaborando com influenciadores e aproveitando o isolamento da pandemia para atrair um público cada vez mais jovem e vulnerável.
“É fundamental um compromisso conjunto entre o Estado, a sociedade civil e os próprios clubes desportivos para enfrentar e prevenir a dependência do jogo”, afirma. E acrescenta: “O combate ao vício do jogo é mais do que uma responsabilidade individual; “É uma causa que envolve todos nós, para proteger o presente e o futuro dos nossos jovens.”
Num contexto onde se discute a intervenção do Estado e se pesa o mercado, as casas de apostas online avançam através de investimentos milionários. Segundo relatório realizado por Martello para a Associação Civil “Pensando em Gerar Políticas Públicas”, as plataformas de jogos investiram mais de 11 bilhões de pesos em publicidade e são patrocinadoras de 28% dos times da primeira divisão e da Copa América 2024.
O jogo só na quadra
O goleiro da seleção argentina de futebol masculino, Emiliano “El Dibu” Martínez, protagonizou uma campanha de conscientização que busca conscientizar os adolescentes sobre os riscos de apostar quando não têm idade suficiente. Porém, Martello ressalta: “O jogo patético não respeita os limites legais e a faixa mais importante de dependência ocorre entre 13 e 24 anos. Portanto, a mensagem correta seria: ‘o jogo não é um jogo’.” Nesse sentido, é um problema real que não faz distinção entre classes sociais e requer uma abordagem urgente. Portanto, é necessário um compromisso conjunto do Estado e da sociedade civil para prevenir este vício e proteger as novas gerações.
Sobre o papel do Estado, Martello reflete que este deve estar sempre a favor dos mais fracos e que não se pode confiar na autorregulação das plataformas de apostas, uma vez que operam para ganhar dinheiro sem se preocuparem com as despesas de saúde que surgem para os Estados. “Sem regulamentações é impossível”, diz ele.
Atualmente, na Câmara dos Deputados da Nação existem quatorze projetos aguardando discussão para implementar estratégias e ações contra os jogos de azar em nível nacional. “Num contexto em que apenas 0,35% do seu orçamento é destinado à investigação de todas as dependências, é evidente a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa”, afirma Martello.
Recentemente, o governo da província de Buenos Aires anunciou um Plano Integral para a Prevenção e Tratamento do Jogo entre Adolescentes que incluirá a formação de um grupo de trabalho formado por diferentes ministérios e pelo Instituto Provincial de Loterias e Cassinos. Este plano trabalhará na regulamentação das apostas online e fornecerá apoio e tratamento às pessoas afetadas e às suas famílias.
Assim, esta tendência evidencia a necessidade de uma sociedade empenhada e de um Estado presente e activo que possa enfrentar o problema do jogo, doença que compromete o presente e o futuro dos jovens.
* Aluno do Segundo Curso de Profissionalização em Práticas Jornalísticas da Agência de Notícias Científicas da Universidade Nacional de Quilmes.
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